GUILHERME BOMBA

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O homem que torcia pela guerra quando ela ainda era dos outros

Da Redação

| Edição de 05 de março de 2026 | Atualizado em 05 de março de 2026

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Sérgio Batista assistia ao jornal como quem acompanha um campeonato.

Sentado no sofá, controle remoto na mão, comentava cada notícia da guerra distante com a segurança de quem nunca ouviu uma bomba cair perto de casa.

“Eu já disse, tem que acabar com eles de uma vez.” A frase saía fácil. Natural. Como quem discute futebol numa segunda-feira. Quando aparecia o número de mortos na tela, Sérgio franzia a testa apenas o suficiente para parecer sério. Depois vinha o comentário inevitável:

“É guerra. Fazer o quê?”

Às vezes até fazia piada. Memes circulavam no celular, e ele encaminhava para os amigos com a mesma leveza com que se envia uma figurinha de bom dia. No fundo, aquilo tudo era simples para ele. Havia dois lados: o bom e o mau. E a guerra era apenas o caminho inevitável entre os dois.

Era longe. Era em outro país. Era televisão. Meses depois começaram as notícias diferentes. Primeiro, o racionamento. O governo dizia que era temporário. Ajustes logísticos. Medidas preventivas.

Sérgio comentou no jantar:

“Normal. Isso acontece em guerra.”

Disse com uma estranha autoridade, como se tivesse estudado o assunto. Como se não tivesse aprendido tudo em trinta segundos de telejornal.

Depois vieram os apagões. As ruas da cidade começaram a mergulhar em noites inesperadas. O comércio fechava mais cedo. Sirenes de teste ecoavam de vez em quando.

Sérgio ainda dizia:

“Relaxem. Isso é estratégia.”

Mas agora sua voz já não tinha o mesmo tom de comentarista. A primeira bomba caiu numa madrugada. Não houve aviso. Não houve estratégia. Só o som. Um estrondo que pareceu rasgar o céu.

Na manhã seguinte, Sérgio caminhava entre vidros quebrados e paredes abertas como feridas. O bairro inteiro parecia uma fotografia de guerra que ele já tinha visto antes.

Na televisão, só que agora a televisão era a rua.

Dias depois, outra bomba caiu. Dessa vez perto da escola.

Sérgio apareceu em um telejornal improvisado, diante de um repórter com o microfone tremendo na mão. O rosto dele estava coberto de poeira.

A voz também tremia.

“Meu filho estava na escola... eu só quero encontrar meu filho... alguém me ajuda a encontrar meu filho...”

Atrás dele, a praça onde o menino brincava tinha virado um monte de concreto. Naquela mesma noite, em outro país, um homem assistia ao jornal sentado no sofá.

O repórter mostrava imagens da cidade destruída.  Escombros. Sirene. Gente correndo.

O homem balançou a cabeça. Pegou o celular.

E comentou no grupo dos amigos:

“É guerra. Fazer o quê?”

Depois mandou um meme. E mudou de canal.

A guerra só parece simples quando os mortos ainda não têm o nome do seu filho.