Há um contrato mudo na sociedade. Ele não está na Constituição nem em nenhum manual de conduta ética, mas todos o conhece de cor. É a lei de Gerson traduzida em rotina: o pequeno desvio de horário, o favor cruzado, o processo que anda mais rápido para quem tem contato, a vaga de estacionamento que vira patrimônio informal. Nada disso costuma configurar crime. É pior: virou cultura.
O escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus chamou de absurdo a contradição entre a busca humana por sentido e o silêncio do mundo. O absurdo não está nas coisas nem apenas na consciência, mas na distância entre ambas. No Mito de Sísifo, ele descreve o homem que pergunta “por quê” a um universo que não responde. Convivemos com essa mesma fratura em escala diária: de um lado, os princípios constitucionais e sociais que orientam nossa conduta e, do outro, uma rotina onde nem sempre o que se pratica reflete inteiramente o que se proclama. O verdadeiro absurdo, portanto, não é a ausência de regras, mas o descompasso entre o que declaramos e o que efetivamente praticamos.
Diante do absurdo, o filósofo rejeita tanto a desistência quanto o chamado “suicídio filosófico”, isto é, a criação de explicações confortáveis que aliviam a tensão sem enfrentar o problema. Essa ideia ajuda a compreender a normalização da corrupção de baixa intensidade: quando pequenos desvios, favorecimentos e transgressões se repetem. Frases como “sempre foi assim” deixam de ser simples constatações e passam a justificar a permanência do erro. O problema não desaparece, apenas deixa de incomodar. O que deveria causar indignação torna-se rotina, a exceção vira regra não escrita e a repetição acaba servindo de conforto para a consciência.
A lei de Gerson opera exatamente nesse ponto cego. Ela não é apenas oportunismo individual, é uma resposta coletivamente combinada ao absurdo: já que o sistema não entrega o sentido que promete, cada um extrai o seu quinhão de vantagem como compensação simbólica. É uma forma de justiça distorcida: “se a estrutura é hipócrita, eu não serei o único ingênuo dentro dela”. O problema é que essa lógica, multiplicada por milhares de pequenas decisões diárias, é o que efetivamente constrói o corporativismo como sistema de proteção mútua.
Camus, porém, não termina no diagnóstico. Sua resposta ao absurdo não é a resignação nem a fuga, é a revolta lúcida. Viver sem apelo a consolos externos, sem fingir que a distância entre norma e prática desapareceu, mas também sem se entregar a ela. Sísifo empurra a pedra sabendo que ela vai rolar de novo, e ainda assim o autor insiste: é preciso imaginá-lo feliz. Não porque a tarefa faça sentido em si, mas porque a lucidez de segui-la sem trapacear, sem pedir recompensa e sem esperar aplauso, é a forma de dignidade disponível.
No cotidiano, isso tem um nome concreto: é fazer o certo mesmo sabendo que a próxima pessoa não o fará. É quem trata a impessoalidade como princípio e não como ingenuidade. Essa pessoa não está imune ao absurdo. Ela vive dentro dele, como todos. A diferença é que não usa o absurdo como desculpa. Recusa tanto o cinismo do “sempre foi assim”, quanto a ilusão ingênua de que basta uma lei nova para resolver o que é, na raiz, um problema de caráter coletivo.
Não há final feliz aqui, e Camus não pediria um. Mas há uma tarefa possível: empurrar a pedra da legalidade todos os dias, sabendo que ela vai rolar de novo amanhã sob a forma de um novo pedido de “jeitinho”. A vantagem que a lei de Gerson promete é pequena e imediata. A lucidez que se propõe é o único ganho que sobra depois que a vantagem se esgota.