A candidata ao Senado pelo Paraná, deputada federal Gleisi Hoffmann (PT), que participou ontem da sabatina promovida pela Tribuna do Norte e TNOnline, defendeu a ampliação dos investimentos em saúde, a interiorização dos serviços médicos e o aumento da participação feminina na política. Ex-senadora e ex-ministra, Gleisi também falou sobre sua experiência no Congresso, a relação com um Senado que considera distante da população paranaense e os desafios de fazer política em um cenário de polarização.
TRIBUNA DO NORTE/TN: O que motivou a senhora a voltar a disputar o Senado neste momento?
GLEISI HOFFMANN: A minha decisão está exatamente na importância que tem o Senado para o Estado do Paraná. Nós só temos três senadores por Estado, e os senadores precisam estar presentes na vida do povo e na vida do Estado. Eu já fui senadora. Fui senadora junto com o (Roberto) Requião, com o Alvaro Dias. Nós tínhamos um protagonismo grande. Articulávamos as forças e tínhamos presença nas discussões. Hoje, infelizmente, a gente tem um Senado muito acanhado. Tirando o Flávio Arns, que tem uma causa muito justa, que é a educação especial, os outros senadores não dizem a que vieram. E também porque eu acho que as mulheres precisam ocupar espaço. Eu fui a primeira senadora do Paraná e não teve mais nenhuma paranaense que ocupou o Senado. Quando tem uma mulher sentada à mesa, esses temas ganham uma importância.
TRIBUNA DO NORTE/TN: A senhora já foi senadora. O que pretende fazer de diferente agora?
GLEISI HOFFMANN: Primeiro, pretendo que aquele protagonismo que nós tivemos naquela época possa ser resgatado. Eu fui uma senadora que tive muita atuação, não só na articulação de recursos para o Paraná, mas também em matérias importantes. Meu primeiro projeto de lei, quando assumi no Senado, foi acabar com o 14º e o 15º salários de deputados e senadores. Também fui relatora da Lei do Feminicídio. Fui relatora do Estatuto das Guardas Municipais e propus a Patrulha Maria da Penha e a aposentadoria das donas de casa. Eu quero continuar propondo temas. A gente precisa trazer recursos para o nosso Estado. Quando fui senadora, em um período em que também fui ministra da Casa Civil da Dilma, nós recebemos muitos recursos. Apucarana é um exemplo disso. Fizemos muitos investimentos, principalmente em conjuntos habitacionais, creches e unidades básicas de saúde. Nós retomamos agora com o nosso governo, com o governo do presidente Lula, que tem atuado muito nisso, mas podemos fazer mais e trazer mais coisas para o Paraná.
TRIBUNA DO NORTE/TN: Qual é a sua principal prioridade para o Paraná?
GLEISI HOFFMANN: Sem dúvida nenhuma, a grande prioridade que eu acho que é de toda a população, mas principalmente de nós mulheres, é a saúde. E sem saúde, a gente não é nada. Nesse período em que estou participando com o presidente Lula no governo, articulamos muito com o Ministério da Saúde e com a Itaipu investimentos em saúde. Nós trouxemos para cá as carretas da saúde. Elas fazem atendimento à saúde da mulher, são verdadeiros consultórios. Temos uma carreta dessas no Paraná, que já fez rodadas em vários municípios. Também temos a carreta das operações oftalmológicas, que faz cirurgias de catarata. Tenho um compromisso de termos pelo menos mais seis carretas no Paraná para ajudar a reduzir filas. Também temos colocado muitos equipamentos em hospitais. Por exemplo, no Honpar, em Arapongas, estamos colocando um aparelho de radioterapia novíssimo, com recursos do Ministério da Saúde. [...) Essa parte da saúde é prioritária, que vou me dedicar muito.
TRIBUNA DO NORTE/TN: A senhora ocupou a Secretaria de Relações Institucionais. Como pretende atuar no Senado diante de um país polarizado e de um Congresso conservador?
GLEISI HOFFMANN: Eu fui ministra da Secretaria de Relações Institucionais fazendo essa relação exatamente com o Congresso. A gente tinha que negociar muito. Para você ter uma ideia, um dos projetos que conseguimos aprovar foi a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Muita gente dizia que isso não era possível, mas com mobilização social e conversa interna a gente consegue. Claro que tem o setor radical, aí não adianta. Como dizia a minha avó, não adianta queimar vela para santo ruim, porque não adianta você querer conversar com uma pessoa que não quer conversar com você. Mas tem gente que quer conversar, mesmo que pense diferente de você. E eu acho que é nessa circunstância que a gente consegue avançar. Então, no Senado, vou ter essa postura: defender o que penso, minhas ideias e aquilo que acredito que é melhor para o brasileiro e para as mulheres, mas também saber conversar para a gente poder avançar.
TRIBUNA DO NORTE/TN: O Vale do Ivaí se destaca pelo agronegócio e pela agricultura familiar. Como ajudar os grandes produtores e incentivar os pequenos?
GLEISI HOFFMANN: Não há contradição nisso. Nós vivemos bem no Brasil usando o grande foco na exportação, que é necessário para o nosso país. A exportação de soja, milho e carne é importante porque traz divisas. Ao mesmo tempo, temos o agricultor familiar, que é quem coloca a comida na mesa da população. O que precisamos é de crédito seguro, algo que o governo já vem fazendo, além de abrir mercados. Para o pequeno agricultor, também precisamos de crédito, programas de sustentabilidade, como o Programa de Aquisição de Alimentos e o Programa Nacional de Alimentação Escolar. É preciso fazer feiras, dar assistência técnica, ter uma política de preços e também estoque. Temos medidas para ambos, e o governo do presidente Lula tem feito isso muito bem.
TRIBUNA DO NORTE/TN: O Paraná vai receber o curso de medicina da Unespar, em Apucarana. Como essa conquista pode ajudar a saúde?
GLEISI HOFFMANN: É fundamental termos cursos de medicina interiorizados. Teve uma época em que o Brasil só tinha cursos de medicina nas capitais ou nos grandes polos, e isso dificultava muito o médico ficar no interior, em cidades onde não havia curso. O governo criou, na época da presidenta Dilma, o programa Mais Médicos. Um dos braços do programa não era só trazer médicos, mas também fazer com que os cursos de Medicina fossem interiorizados. Essa ampliação de cursos, como está ocorrendo na Unespar e em outras universidades, inclusive privadas, faz parte desse programa de expansão. O MEC tem autorizado esses cursos dentro dessa concepção: precisamos ter mais cursos de Medicina, mais interiorizados, para fazer com que o profissional que se forma fique onde se formou.
TRIBUNA DO NORTE/TN: Apucarana, por exemplo, enfrenta uma carência de estrutura hospitalar. Existe algum projeto para trazer mais hospitais para a cidade e para a região?
GLEISI HOFFMANN: O Hospital Honpar é um grande complexo que acaba atendendo toda a região. O Hospital da Providência eu já estive visitando, já conversei com as irmãs e sempre procuramos ajudar também por meio de emendas e recursos. Obviamente, hospital sempre é uma carência. Você sempre vai precisar de mais hospitais. Então, precisa, sobretudo, além de abrir o hospital, ter sustentabilidade e recursos para mantê-lo. Nós já tivemos situações em que se abre o hospital e não há recursos para manter. Acho que precisamos fazer essa discussão com Apucarana e com outros municípios para avaliar essa necessidade. Estou à disposição para esse tipo de conversa.
TRIBUNA DO NORTE/TN: O Senado tem recebido críticas sobre o distanciamento com a população. A senhora concorda? O que poderia ser feito?
GLEISI HOFFMANN: No caso do Paraná, é uma realidade por conta da ausência dos senadores. Como eu disse, o mais presente é o Flávio Arns, que tem uma bela pauta, que é a causa da educação especial, mas os outros senadores realmente ficam muito distantes do povo paranaense. As pessoas se ressentem. Os prefeitos se ressentem, as lideranças se ressentem, porque o Senado deixa de ser um espaço de articulação. Isso não quer dizer que o senador tenha que estar o tempo inteiro visitando os municípios, mas ele tem que estar presente nas conversas, nas reuniões, fazer giros pelo Estado, conversar com as lideranças.
TRIBUNA DO NORTE/TN: Como mulher, a senhora acredita que é possível ampliar a participação feminina na política?
GLEISI HOFFMANN: Com certeza. Essa é uma luta que faço há muito tempo, desde que iniciei minha militância política, desde que fui pela primeira vez senadora, fui ministra e depois deputada, além da minha militância no movimento estudantil. É fundamental. Na política a gente decide o rumo das coisas. Se a metade da população, que somos nós mulheres, não estiver sentada à mesa para tomar essas decisões, com certeza a coisa sai pela metade. Não é uma guerra contra os homens, mas é para termos equilíbrio. Eu luto muito para que as mulheres estejam na política. A minha candidatura ao Senado tem esse propósito de também colocar isso em debate, em pauta, e estimular outras mulheres a participarem. Nós precisamos estimular. Quando a mulher entra na política, melhora para todo mundo. Melhora para a família, melhora para os homens. Isso faz toda a diferença.
TRIBUNA DO NORTE/TN: O Paraná é um Estado conservador. Como pedir voto para pessoas que têm resistência ao PT?
GLEISI HOFFMANN: Primeiro, eu já fui senadora nesse Estado conservador e sempre fui do PT. Então, eu não concordo é dizer que o Paraná é um Estado de direita. Isso eu não concordo, porque eu já fui senadora, o Requião já foi senador e foi três vezes governador. O PT já governou Maringá, Londrina, Apucarana, Ponta Grossa... Nós temos um eleitorado que olha para nós e para os nossos programas e propósitos. Passamos por uma conjuntura difícil, com tudo o que aconteceu, o impeachment da Dilma, a Lava Jato, a chegada do Bolsonaro à Presidência e o crescimento da extrema direita. Quero representar as mulheres paranaenses, quero representar o povo paranaense, mas especialmente as mulheres. Nós precisamos desse espaço para colocar as pautas que nos são caras. Por isso quero voltar ao Senado.